Eduardo Paes, 56 anos, renunciou em março de 2026 à Prefeitura do Rio de Janeiro para disputar o governo do estado nas eleições de outubro. Filiado ao Partido Social Democrático (PSD), ele encerra um ciclo de quatro mandatos à frente da capital fluminense — o maior da história da cidade — e se lança à corrida pelo Palácio Guanabara como o nome de maior capital eleitoral comprovada no estado.
A trajetória que o colocou nessa posição começou há mais de três décadas, no começo dos anos 1990, quando Paes entrou na política pela porta dos fundos da administração municipal.
De subprefeito da Zona Oeste a vereador mais votado do país
Nascido no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio, e formado em Direito pela PUC-Rio, Paes iniciou a carreira política aos 23 anos como subprefeito da Barra da Tijuca, Recreio e Jacarepaguá, nomeado pelo então prefeito Cesar Maia. A região vivia uma expansão urbana acelerada e sem controle, e a missão de Paes era impor ordem à ocupação do solo na Zona Oeste, segundo registros da época.
O desempenho no cargo o projetou. Em 1996, pelo Partido da Frente Liberal (PFL), foi eleito vereador com 82.418 votos — a maior votação para o cargo no Brasil naquele ano. Dois anos depois, ainda sem concluir o mandato na Câmara Municipal, elegeu-se deputado federal com 117.164 votos.
Em Brasília, foi autor do projeto que deu origem ao Supersimples, o regime tributário diferenciado para micro e pequenas empresas, uma das medidas de maior impacto econômico para o setor produtivo brasileiro nas últimas décadas. Reeleito em 2002 com 186.221 votos, consolidou sua posição entre os parlamentares mais votados do Rio de Janeiro.
A aliança com Cabral e a chegada à prefeitura
A candidatura ao governo do estado em 2006 terminou com 5,5% dos votos — um resultado que, na prática, funcionou como plataforma de negociação. Paes apoiou Sérgio Cabral no segundo turno e recebeu em troca a Secretaria de Esportes e Turismo do governo estadual. Foi a partir dessa posição que construiu as bases para disputar a prefeitura dois anos depois.
Em 2008, eleito no segundo turno com 50,8% dos votos contra Fernando Gabeira (PV), Paes chegou ao Palácio da Cidade pela primeira vez. Sua gestão coincidiu com o período de maior exposição internacional do Rio: a cidade recebeu os Jogos Pan-Americanos em 2007, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Os quatro mandatos e o legado controverso
Reeleito em 2012 com 64% dos votos ainda no primeiro turno, Paes comandou as transformações urbanas mais profundas da cidade em décadas: a implantação dos corredores de BRT TransOeste, TransCarioca e TransOlímpica, a demolição do Elevado da Perimetral e a criação da região do Porto Maravilha, a construção do Parque Madureira e do Museu do Amanhã.
Estudo publicado pela Fundação Getúlio Vargas em 2024 apontou que o legado das Olimpíadas de 2016 gerou impacto de R$ 99 bilhões sobre a produção bruta da cidade. O próprio documento, no entanto, foi encomendado no contexto político da gestão Paes — o que exige leitura crítica dos números.
O período também registrou falhas de gestão com consequências graves. Em abril de 2016, um trecho da ciclovia Tim Maia, inaugurada pelo próprio prefeito três meses antes na Avenida Niemeyer, desabou e matou duas pessoas. Catorze réus da empresa responsável pelo projeto foram indiciados por homicídio culposo.
Após deixar a prefeitura em 2017, Paes tentou o governo do estado em 2018 e foi derrotado por Wilson Witzel. Voltou à prefeitura em 2021, depois de vencer Marcelo Crivella com 64% dos votos, e em 2024 se reelegeu no primeiro turno com 60,47%, derrotando Alexandre Ramagem, candidato apoiado por Jair Bolsonaro.
Em janeiro de 2025, ultrapassou Cesar Maia como o prefeito mais longevo da história do Rio, com 4.384 dias no cargo.
A candidatura ao governo
A renúncia em março de 2026 marca a transição de Paes do plano municipal para o estadual. Ele disputará o Palácio Guanabara pelo PSD em outubro, em uma corrida que ainda está em formação quanto aos demais candidatos.
Sua principal capital político-eleitoral é a combinação de quatro vitórias consecutivas na maior cidade do estado com uma base ampla construída ao longo de 30 anos de cargos eletivos e executivos. Seu principal ponto vulnerável, historicamente explorado por adversários, é a oscilação partidária — Paes passou por PFL, PV, PTB, PMDB, DEM e PSD ao longo da carreira — e as críticas à gestão olímpica.




